fevereiro 10, 2004

Eu sou deste tempo...

dartacao

(...)"Em conversa com o irmão mais novo de um amigo, cheguei a uma triste conclusão: A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está perdida.

E está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que hoje rondam os trinta.

O grande choque, entre outros nessa conversa, foi quando lhe falei no Tom Sawyer. Quem?, perguntou ele. Quem?! Ele não sabe quem é o Tom Sawyer! Meu Deus...

Como é que ele consegue viver com ele mesmo? A própria música: "Tu que
andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom Sawyer, mil
amigos deixarás, aqui e além..." era para ele como o hino senegalês cantado em mandarim.

Claro que depois dessa surpresa, ocorreu-me que provavelmente ele não
conhece outros ícones da juventude de outrora. O D' Artacão, esse herói
canídeo, que estava apaixonado por uma caniche; Sebastien et le Soleil,
combatendo os terríveis Olmecs; Galáctica, que acalentava os sonhos dos
jovens, com as suas naves triangulares; O Automan, com o seu Lamborghini
que dava curvas a noventa graus; O mítico Homem da Atlântida, com o Patrick
Duffy e as suas membranas no meio dos dedos; A Super-Mulher, heroína que
nos prendia à televisão só para a ver mudar de roupa (era às voltas,
lembram-se?); O Barco do Amor, que apesar de agora reposto na Sic Radical,
não é a mesma coisa. Naquela altura era actual...; E para acabar a lista, a
mais clássica de todas as séries, e que marcou mais gente numa só geração:
O Verão Azul.

Ora bem, quem não conhece o Verão Azul merece morrer. Quem não chorou com a
morte do velho Shanquete, não merece o ar que respira. Quem, meu Deus, não
sabe assobiar a música do genérico, não anda cá a fazer nada.Depois há toda
uma série de situações pelas quais estes jovens não passaram, o que os
torna fracos. Ele nunca subiu a uma árvore! E pior, nunca caiu de uma. É um
mole. Ele não viveu a sua infância a sonhar que um dia ia ser duplo de
cinema. Ele não se transformava num super-herói quando brincava com os
amigos. Ele não fazia guerras de cartuchos, com os canudos que roubávamos
nas obras e que depois personalizávamos. Aliás, para ele é inconcebível que
se vá a uma obra. Ele nunca roubou chocolates no Pingo-Doce. O Bate-pé para
ele é marcar o ritmo de uma canção.

Confesso, senti-me velho...

Esta juventude de hoje está a crescer à frente de um computador. Tudo bem,
por mim estão na boa, mas é que se houver uma situação de perigo real, em
que tenham de fugir de algum sítio ou de alguma catástrofe, eles vão ficar
à toa, à procura do comando da Playstation e a gritar pela Lara Croft.
Óbvio, nunca caíram quando eram mais novos. Nunca fizeram feridas, nunca
andaram a fazer corridas de bicicleta uns contra os outros. Hoje, se um
miúdo cai, está pelo menos dois dias no hospital, a levar pontos e a fazer
exames a possíveis infecções, e depois está dois meses em casa a fazer
tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído. Doenças com
nomes tipo "Moleculum infanticus", que não existiam antigamente.

No meu tempo, se um gajo dava um malho (muitas vezes chamado de "terno")
nem via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra
espalhada por cima não estancasse. Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua
buscar os putos pelas orelhas, porque eles estavam a jogar à bola com os
ténis novos. Um gajo na altura aprendia a viver com o perigo. Havia uma
hipótese real de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14
anos, de apanharmos tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando
se apanhava boleia para ir para a praia. E sabíamos viver com isso.

Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atinge
objectivos maiores com menos idade? E ainda nos chamavam geração
"rasca"...

Nós éramos mais a geração "à rasca" , isso sim. Sempre à rasca de
dinheiro, sempre à rasca para passar de ano, sempre à rasca para
entrar na universidade, sempre à rasca a ver se a namorada estava grávida,
sempre à rasca para tirar a carta, para o pai emprestar o carro. Agora
não falta nada aos putos.
Eu, para ter um mísero Spectrum 48K, tive que pedir à família toda para se
juntar e para servir de prenda de anos e Natal, tudo junto. Hoje, ele é
Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo. Claro, pede-se a um
chavalo de 14 anos para dar uma volta de bicicleta e ele pergunta onde é
que se mete a moeda, ou quantos bytes de RAM tem aquela versão da
bicicleta.

Com tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu
que 8 em cada dez putos sejam cromos. Antes, só havia um cromo por turma.
Era o tóto de óculos, que levava porrada de todos, que não podia jogar à
bola e que não tinha namoradas. É certo que depois veio a ser líder de
algum partido, ou gerente de alguma empresa de computadores, mas não curtiu
nada. Hoje, se um puto é normal, ou seja, não tem óculos, nem aparelho nos
dentes, as miúdas andam atrás dele, anda de bicicleta e fica na rua até
às dez da noite, os outros são proibidos de se dar com ele."(...)

Não sei quem é o autor, porque recebi por email, mas confesso que adopto todas as suas palavras. Muito bem...

Publicado por sadangel em fevereiro 10, 2004 01:56 PM
Comentários

Oh tempo volta pra trás...E o bocas, lembras-te?

Afixado por: wildblue em fevereiro 16, 2004 01:16 PM

É tudo verdade, verdadinha...Quem não sabe o que é o "Verão Azul" não merece o ar que respira... a mim bastou-me ler e fiquei logo a assobiar a melodia...

Afixado por: Vespão em fevereiro 13, 2004 12:51 AM

estamos velhos...

Afixado por: Ana [Lua] em fevereiro 12, 2004 04:05 AM

Ei, em relação ao comentário de whiteball, vocês também foram vítimas do óleo de fígado de bacalhau? arghhhh!!!! Bem, em relação ao post, devo dizer que esse pessoal que hoje anda pelos 20 anos, daqui alguns anos vão estar lamentando que os mais jovens não conheceram Lara Croft, que não sabem o que é Playstation, enfim...Mas sei bem que sensação é essa que fala o texto. Todos, cada um em suas respectivas idades, têm essa opinião sobre os mais jovens, e todos, cada um com suas lembranças têm sua parcela de razão. Beijos

Afixado por: Adriana em fevereiro 11, 2004 11:37 AM

Com toda acerteza que é assim: e brincávamos coma s plantas, e cuidavamos das cabras e ao outro dia havia escola; mas havia também "os pequenos vagabundos" - e o jean-Lucq era o meu herói, e havia o Paulo e Virgínia, e na rádio ouviam-se folhetins e ao outro dia havia escola; e depois erapreciso fazer comida para um rancho de trabalhadores que às 5 da manhã vinham arrancar as batatas: e a miúda de 12 anos sabia fazer panelas de comida bem apaladada; e à noite havia "O Imortal!ou o Vasco Granja com a pantera or Mr Magoo! E ao outro dia havia escola: e não se faltava^`a escola nem que soubéssemos que íamos beber òleo de Fígado de Bacalhau...

Afixado por: whiteball em fevereiro 10, 2004 07:28 PM

ó puxa, agora eu tô boiando...

Afixado por: Vampirella em fevereiro 10, 2004 07:10 PM